domingo, 2 de julho de 2017

Superando Diferenças e Ganhando Irmãos

Entre as lições mais necessárias do Evangelho está a necessidade de superação diferenças para a vida comum na graça e o chamado do apóstolo Paulo é um dos bom exemplos bíblicos.
Primeiramente, o próprio Paulo precisou enfrentar a si mesmo e sua visão de mundo, porque era um fariseu dedicado na sua fé e, precisou renunciar suas certezas quando encontrou-se verdadeiramente com Cristo: “Porque ouvistes qual foi o meu procedimento outrora no judaísmo,como sobremaneira perseguia eu a Igreja de Deus e a devastava” (Gl 1.13). Renunciar a si mesmo e abandonar certezas pessoais diante da verdade de Cristo foram atitudes de coragem e limpeza moral que somente a graça pode operar no ego humano.
Quando ele se tornou um pregador da fé que perseguia, foi a vez da igreja ter de renunciar a si mesma. Eles precisaram receber seu novo irmão sem ódio ou animosidade no coração: “Ouviam somente dizer: aquele que, antes, nos perseguia, agora, prega a fé que, outrora, procurava destruir. E glorificavam a Deus a meu respeito” (Gl 1.23-24). Esse quebrantamento e congraçamento entre perseguidor e perseguidos foi um resultado singular da obra da graça no seio da comunidade da fé.
Por fim, agora, andando juntos, gentios e judeus, precisaram receber-se mutuamente como irmãos. Os judeus, em particular, raiz primeira da igreja, precisaram esforçar-se por compreender que sua fé e seus ritos foram superados pela obra da graça operada por Deus e a circuncisão, uma das marcas mais profundas da relação da nação judaica com Deus, um dos seus símbolos identitários mais preciosos deveria ser superado, porque a graça de Deus os chamou para uma fé mais ampla e universal. Naquele momento, eles precisaram renunciar a si mesmos: “(...)quando conheceram a graça que me foi dada, Tiago, Cefas e João, que eram reputados colunas, me estenderam, a mim e a Barnabé, a destra de comunhão, a fim de que nós fôssemos para os gentios, e eles, para a circuncisão” (Gl 2.9).
Aqui estão apenas algumas das lições da graça sobre como Deus deseja que aprendamos a viver em comunhão, superando diferenças, por causa da verdade de Cristo. O orgulho, baseado somente em nós mesmos, não é um modo sábio de conservar a fé. Ele precisa se iluminado pela clareza da verdade de Cristo que produz sabedoria e verdadeira nova vida.
O Evangelho prospera em nós quando nos capacita a superar dificuldades e diferenças para servir a Cristo. Precisamos lutar pessoalmente para ver o outro a partir de Cristo, recebê-lo como servo do Senhor e dispor-nos para andar juntos, por que Cristo anda conosco.  A igreja ganha quando nós aprendemos perder para servir a Cristo e nós ganhamos irmãos.


sexta-feira, 2 de junho de 2017

O Dia de Pentecostes, os últimos dias e a Igreja

Em geral, cristãos evangélicos valorizam duas grandes datas da fé cristã: natal e páscoa. Claramente, estes dois momentos fundamentais da História da Redenção recebem a grande atenção de nossas liturgias e expectativas. Por isso, não é incomum que sejam datas comemoradas, com musicais, cultos especiais e outros eventos de destaque.
Cinquenta dias após a páscoa, isto é, depois da morte de Jesus, os discípulos estavam reunidos em um mesmo lugar (At 2.1) e era o Dia de Pentecostes (Lv 23.15-21). De repente, um som veio do céu, um vento impetuoso tomou conta do lugar (At 2.2) e línguas, como de fogo pousaram sobre cada um deles (At 2.3) e Deus marcou sua igreja com o sêlo do Espírito Santo (At 2.4).
O Dia de Pentecostes, embora fique um tanto esquecido na liturgia evangélica, marcou o início de uma nova era da História da Redenção, pois inaugura o tempo em que Deus escolheu ampliar as tendas da salvação a todas as nações, quando derramou seu Espírito, cumprindo a promessa de dar à sua igreja o poder para testemunhar: “Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas” (At 1.8).
Pedro, cheio do Espírito, levantou-se dentre todos aqueles que recebiam o dom do Espírito e explicou o que estava acontecendo ali: “Mas o que ocorre é o que foi dito por intermédio do profeta Joel: E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei o meu Espírito (...)” (At 2.16-17).
O Pentecostes foi o início do tempo que as Escrituras chamam de “últimos dias”, isto é, a última etapa da presente era, até que seja encerrada a luta contra todos os inimigos de Cristo e finalmente venha sobre todos nós a era final, a eternidade (1Co 15.24-26).
Dado, de uma vez por todas à Igreja, o Espírito Santo é o sêlo da presença de Deus e do governo de Cristo na Igreja (Ef  1.13-14). A habitação do Espírito Santo habilita a igreja a testemunhar e a realizar todo o ministério da vida cristã (1Co 12.1-11). O Espírito Santo é quem conduz a Igreja pela presente era, a fim de que crentes sejam verdadeiros servos a trabalho do reino (2Co 3.17-18).
Estes “últimos dias”, iniciados naquele “Dia de Pentecostes”, são, portanto, os dias que apontam para o Governo de Cristo sobre todas as coisas, tornado efetivo primordialmente na vida da Igreja, que é o seu corpo (Ef 1.22-23). Nestes últimos dias, são os filhos e filhas de Deus que fazem a sua obra e revelam ao mundo que “Deus Reina” e, por isso, Pentecostes é também o dia da Igreja e um dia para a consagração ao serviço de Deus.


sexta-feira, 28 de abril de 2017

A Teologia da Ressurreição: Fé e Prática

O evento da ressurreição de Jesus Cristo foi o evento redentivo da vitória do Senhor sobre a morte e a primordial “boa nova” (evangelho) a ser anunciada entre os homens: “Com grande poder, os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e em todos eles havia abundante graça (At 4.33).
Ser um “evangélico” é ser um propagador da boa nova da “morte e ressurreição de Cristo” e “todas as suas implicações para a vida cristã”. Desta forma, os autores do Novo Testamento, desenvolveram uma relação teológica com a ressurreição de Cristo, estabelecendo, principalmente dois pontos: a veracidade da ressurreição e o poder transformador dela para a vida cristã.
“Antes de tudo, vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (1Co 15.3-4). Neste capítulo, Paulo dedica um grande espaço para ensinar o significado da ressurreição. Ele, entretanto, inicia este ensino, com uma grande sequência de afirmação da veracidade da ressurreição com as provas irrefutáveis de que ele havia aparecido para os apóstolos, outros 500 irmãos de uma única vês e. por fim a ele próprio (1Co 15.1-8).
Sem dúvida a possibilidade e a veracidade da ressurreição sãos aspectos fundamentais da “fé evangélica”. Os apóstolos buscaram desenvolver teologicamente quais as implicações  da ressurreição para a nossa ligação com Cristo e trabalharam primordialmente a percepção mais apurada do que significa “nova vida em Cristo”: : “...oferecei-vos a Deus, como ressurretos dentre os mortos, e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça” (Rm 6.13).
Paulo compreendia que havia um “poder transformador” na ressurreição de Cristo e que este poder deveria ser alcançando por meio de uma conformação da vida cristã ao novo padrão estabelecido pela ressurreição de Cristo: “...e ser achado nele, não tendo justiça que procede da lei, se4não a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé, para o conhecer, e o poder da sua ressurreição (Fp 3.9-10).
Enfim, o que podemos dizer sobre o que os autores do Novo Testamento produziram para explicar a ressurreição é que eles se dedicaram em conduzir a Igreja na crença à verdade de que Cristo Vive e que Sua vida deve ser reproduzida na conduta cristã: “Chegando-vos a ele, a pedra que vive (...) também vós mesmos como pedras viventes (...)” (1Pe 2.4-5).


sexta-feira, 21 de abril de 2017

Emaús e o Caminho da Vida Com Cristo

Dois homens caminham movidos por expectativas frustradas. Eles acreditaram que teriam uma vida melhor, quando conheceram Jesus de Nazaré, mas suas esperanças esvaíram quando os soldados prenderam Jesus e o levaram à Cruz. Tudo, porém, realmente se encerrou, quando a pedra foi movida para fechar o sepulcro.
Cleopas e o outro discípulo tinham como destino o vilarejo de Emáus, há uns 7 ou 8 km de Jerusalém (Lc 24.13). Eles conversavam sobre suas frustrações (Lc 24.14) quando Jesus se pôs a andar com eles (Lc 24.15), mas não o reconheceram (Lc 24.16).
Esse caminho de Emaús, pode ser uma ilustração da nossa própria vida. Em alguma medida, passamos por tempos assim, em que os acontecimentos parecem ir numa direção diferente daquela apontada pela fé. Mas é possível que estejamos vivendo o mesmo dilema, dos dois discípulos, pois podemos viver ao lado de Cristo, movidos não pela sua presença e sim por nossas falsas concepções sobre a vida. Quais os erros dos discípulos de Emáus que os levaram a tal condição? Como foram restaurados?
Os discípulos de Emaús erraram quando limitaram a sua fé em Cristo apenas a aspectos temporais: “...Ora, nós esperávamos que fosse ele quem havia de redimir a Israel” (Lc 24.21). O fato de terem ouvido que as mulheres tinham sido avisadas de que Jesus havia ressuscitado (Lc 24.22-23), nada mudou em seu coração.
Jesus disse que erraram por serem tardios em crer nas Escrituras: “...Ó nescios e tardos de coração para crere tudo o que os profetas disseram” (Lc 24.25). Desta forma, o diagnóstico de Cristo sobre a fé deles é que ela não se estabeleceu fortemente nas Escrituras e por isso, ruíra facilmente diante da vida.
Jesus passou a falar-lhes sobre a glória do Cristo Ressurreto: “Porventura, não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na sua glória. E, começando por Moisés, discorrendo por todos os profetas, expunha-lhes, o que a seu respeito constava em todas as Escrituras” (Lc 24.26-27). A partir das Escrituras, nossa relação com Deus ganha outros contornos. Nossa vida com Cristo se solidifica na medida em que a Verdade da Palavra produz a verdadeira santidade em nós.
Vida santificada não  se trata apenas de um melhoramento moral das condições da nossa vida, ela é uma tratamento da nossa união com o Cristo ressurreto. Ela se constrói na ação da Escritura em nosso coração: “Porventura não nos ardia o coração, quando ele, pelo caminho, nos falava, quando nos expunha as Escrituras? (Lc 24.32).


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Até que nos pareçamos com Cristo!

A Igreja de Cristo tem um chamado único: parecer-se com seu Senhor: “...até que cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4.12).
Uma relação de amor e fidelidade a Deus é nutrida fortemente por um elevado senso de direção. Ou seja, o  cristão precisa saber exatamente aonde deve chegar no que diz respeito à transformação do seu caráter. Portanto, quando vemos o senso de alvo proposto nas Escrituras, tudo o que precisamos desejar e buscar é: “chegar lá”.
Até que cheguemos - Para o apóstolo Paulo, este senso de direção e alvo era fundamental. Ele próprio insistia em dizer de si mesmo: “...prossigo para o alvo” (Fp 3.14). Desta forma, ele insiste com os crentes de Éfeso que não descansassem em seu labor, quanto à “unidade da igreja” e o “conhecimento do Filho de Deus” enquanto não vissem em suas vidas amadurecimento, isto é, “perfeita varonilidade”.
Medida da estatura - este amadurecimento proposto pela Escritura é um conjunto de mudanças que deve ocorrer em nosso caráter, que proporcionem uma elevação de nossa condição humana. Essa elevação é indicada no modo como o apóstolo aponta para alto quando usa a expressão “medida da estatura” (metros helíquia - grego), o que pode ser traduzido por “uma extensa maturidade”.
Plenitude de Cristo - contudo, essa elevação da nossa condição humana não ocorre segundo nossos próprios desejos ou propósitos, ela tem como referencial o próprio Cristo. Neste pondo, voltando ao texto, vemos o apóstolo nos dizendo que ‘...devemos crescer em tudo naquele que é a Cabeça, Cristo” (Ef 4.15). Ou seja, o alvo de nossa caminhada como filhos de Deus neste mundo é termos mais de Cristo em nossa vida.
Aos 58 anos, a Igreja Presbiteriana de Vila Formosa ainda congrega irmãos com a mesma missão: parecer-se com Cristo. Sem este alvo não há sentido na jornada cristã. Por isto, irmãos, tudo  o que buscamos como igreja é “chegar lá” e fazer da nossa experiência como Corpo de Cristo uma jornada de fé na direção da verdadeira maturidade: “...parecer-se com Cristo”.



sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

A beleza de aprender com a voz que emerge do silêncio

Meditação no Salmo 46.10

Algumas vezes, precisamos mais que ler as Escrituras. Devemos ir além e nos esforçar para ouvir a voz que parte de cada verso bíblico. Procure lutar contra todas as forças contrárias dos ventos que sopram outros sons e se volte a ouvir a poderosa voz que emerge cada vez que a nossa alma busca alimentar-se do texto sagrado.

Claro, a alma não somente se alimenta quando está triste. Afinal, algumas vezes, o canto de júbilo precisa ser disparado de dentro para fora de nosso íntimo, aleluia!! Mas, sem dúvida, o vale da dor é lugar mais comum para que nosso coração se cale e busque o doce som da voz de Deus.

Hoje, minha alma conversou com Deus e foi assim que ele respondeu: Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus! (Sl 46.10). Nesta hora, não pude resistir, os poucos sons da noite silenciaram-se diante de Deus, tudo ficou realmente “quieto” e o texto sagrado ecoou, aprofundando-se em mim.
Quando vozes se levantam dentro do coração do homem e tudo parece fervilhar como uma guerra, um terremoto ou um maremoto, Deus se faz ouvir: Bramam nações, reinos se abalam ele faz ouvir a sua voz, e a terra se dissolve (Sl 46.6). A voz de Deus ecoa e nos chama ao descanso: O Senhor dos Exércitos está conosco, o Deus de Jacó é o nosso refúgio (Sl 46.7).

Quando ouviu Deus, meu coração se calou e as nuvens da tentação se dissipam quando isto acontece. Como o sol lançando os raios de calor sobre a terra, quando reaparece vencendo as nuvens de um dia nublado, assim a paz penetrou no profundo da minha alma e ela, que estava se sufocando em seus próprios gritos, se acalmou.

Dois conselhos poderosos e ouvi: pare de se mexer inquieto, apenas cale-se e considere quem realmente está no controle de todas as coisas - “Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus” – sem dúvida, este som me fez calar e descansar tranquilo, como um viajante que encontrou estalagem, comida, bebida quente, depois de um dia de caminhada no frio e na solidão da noite em um deserto.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Presbiterianismo Transformador - a Palavra Impressa

Autor: Rev. José Maurício Passos Nepomuceno

Culto, pregação, aproximação pessoal, estas foram algumas das estratégias presbiterianas para ganhar a mente dos brasileiros. O entendimento dos presbiterianos a respeito do processo de influencia sobre o povo brasileiro não parou nas ações dentro da igreja ou no âmbito do evangelismo corpo a corpo. Muito cedo, os pregadores presbiterianos voltaram os seus esforços para a literatura, em particular, o uso dos jornais.
Embora ainda haja um campo magnífico a ser explorado por pesquisadores, é muito conhecido de todos do campo de pesquisas históricas, que os primeiros protestantes brasileiros foram muito abundantes no uso do material escrito. Eles produziram atas, relatórios, publicaram folhetos, traduziram livros e escreveram muitos artigos para jornais.
O Rev. Simonton, em 1863, escreveu uma carta para a Junta de Missões Estrangeiras falando sobre a oportunidade de pregar o Evangelho por meio do uso dos jornais que circulavam no Império: “Uma imprensa livre oferece vantagens para a disseminação da verdade evangélica que deve ser muitíssimo apreciada. Livros e tratados protestantes podem ser publicados sem necessidade de licença do governo; mesmo os jornais das grandes cidades prontamente aceitam inserir um artigo religioso cobrando as mesmas taxas de um artigo comum. A despesa de uso dos jornais é considerável, mas como vários deles circulam por todo o império, a verdade salvadora é, dessa forma, espalhada por um vasto campo”. Essa percepção estratégica foi fundamental para que em 5 de novembro  de 1864, o primeiro periódico protestante fosse impresso na cidade do Rio de Janeiro: “Imprensa Evangélica”, que foi publicado até 1892.
O jornal “Imprensa  Evangélica”, inicialmente, dirigido pelo próprio Simonton, publicava sermões, trechos de obras literárias protestantes, divulgava os trabalhos e endereços das igrejas, além de colunas específicas de apologia sobre os erros do catolicismo romano etc. Mas um dos seus focos mais interessantes era a ideia de que poderia servir como um manual de devoção pessoal para as famílias presbiterianas do país.
Fazer o brasileiro ler e usar esta leitura como mecanismo de conquista dos corações foi um dos mais bem sucedidos projetos presbiterianos no intuito de espalhar o Reino de Cristo no Brasil. A Imprensa Evangélica foi só o começo de uma vastidão de publicações, o que levaria os presbiterianos a outro grande empreendimento: a educação.