sábado, 3 de novembro de 2018

Antecedentes da Reforma - A Tradição Católico Ortodoxa


Nos dias do Imperador Constantino, a mudança da Capital do Império levou para o Oriente, mais particularmente para a cidade de Bizâncio, depois Constantinopla, o centro das atenções, fortalecendo, desta forma, a influência e a política da parte oriental do Império Romano.

Depois de Constantino, no final do IV Sérculo, Teodósio assumiu o Império e é ele quem declarou o Cristianismo como a religião oficial do Império. Após sua morte, o Império se dividiu ainda mais, uma vez que seus filhos separaram a administração  imperial entre Roma e Constantinopla. A cultura e a língua grega prevaleciam na parte Oriental e o Latim e a cultura romana no Ocidente.
O Cristianismo, por sua vez, continuava sendo único nas duas partes do Império, mantendo-se como a principal razão da unidade imperial, mas não escapou às mesmas influências culturais que, aos poucos, faria distinguir as Igrejas do Ocidente e do Oriente. Pode se dizer que a igreja ocidental, influenciada pela cultura romana, tinha uma percepção mais prática da teologia. Já a igreja oriental, por usa vez, tinha uma atitude mais reflexiva e experiencial.
Essas diferenças começaram a ser vistas também na teologia das duas partes do Cristianismo. Os Ocidentais, seguindo a tradição de Agostinho, preferiam a autoridade objetiva das Escrituras e os Credos escritos, assim como a tradição magisterial da igreja, especialmente na ascensão do Papa Gregório, o Grande.
A igreja oriental, buscou na teologia de Orígenes sua maior influência e orientação, resultando numa forte doutrina mística-racional, que favorecia a liturgia da Igreja como a principal forma de seu cuidado cristão. Desta forma, a tradição da liturgia cristã tornou-se central para a Igreja, fortalecendo seu conceito de ortodoxia litúrgica.
Essas diferenças continuariam  distinguido as duas tradições cristãs e com o fortalecimento do papado ocidental culminaram numa grande controvérsia quanto à uma mudança ocidental do “Credo Niceno”, entre os séculos IX e XI. Os orientais acusavam os romanistas de acrescentarem a expressão “e do Filho” na frase sobre a processão do Espírito Santo: “Creio no Espírito Santo, Senhor, doador da vida, e procede do Pai e do Filho” (controvérsia Filioque).  Por isso, os cristãos orientais se diziam “ortodoxos”, uma vez que se mantinham fiéis ao Credo Antigo, sem mudanças. Isso gerou o cisma de 1054d.C. 
As tradições cristãs da alta idade média, infelizmente se apegaram na construção teológica do período medievo, em lugar de fazer um movimento de volta às Escrituras. Um retorno às Escrituras. As Escrituras deveriam ter sido o seu mais forte elo de unidade.
Por isso, uma das importantes contribuições da Reforma Protestante foi que ela buscou nas Escrituras o seu padrão de fé, levando a Igreja de volta a Cristo.


quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Antecedentes da Reforma - A Tradição Católico Romana


Para o catolicismo romano, afirmar que a Igreja Cristã tornou-se a Igreja Católica Romana soa como uma afirmação herética. Segundo o seu modo de pensar, a Igreja de Cristo sempre foi o que é hoje, por meio de sua comunhão com os apóstolos, por isso, a denominação Igreja Católica Apostólica Romana.
Já o protestantismo analisa a história da Igreja de Cristo e tem uma percepção de que o  Cristianismo não se constrói apenas em uma ligação de tradição com a pessoa dos apóstolos, mas com o ensino dos mesmos.  Desta forma, os protestantes compreendem que a Igreja Cristã foi perdendo, no decorrer da Idade Média, sua solidez na doutrina dos apóstolos e, portanto, assumindo uma outra identidade, menos cristã.
Até Agostinho, os movimentos teológicos da Igreja eram sempre de retorno ao ensino dos apóstolos. Portanto, os Concílios Ecumênicos, que citamos na última mensagem e o desenvolvimento da Teologia dos Pais da Igreja, eram sempre esforços de banir as heresias, especialmente aquelas sobre a pessoa e obra de Cristo e levar a Igreja de volta às Escrituras e à doutrina dos apóstolos.
Após a morte de Agostinho, surgiram tendências teológicas conflitantes e em 529dC, na França, reuniu-se um Sínodo de Orange, que definiu uma posição diferenciada da até então considerada ortodoxa, sobre o livre-arbítrio e a graça.
Neste período a teologia da Igreja ficou conhecida como “semi-pelagiana”, ficando entre a posição monergista de Agostinho, que afirmava que a salvação era exclusivamente pela graça e que o pecado tirara o livre-arbítrio humano, e a posição de Pelágio, que afirmava que a salvação era por obras, sendo o homem livre para escolher a Deus.
Essa posição intermediária, que afirmava que a salvação era pela graça sim, mas que exigia as obras humanas como fator decisivo, abriu portas para um crescimento da busca de determinadas práticas dos fiéis na intenção de cooperarem com a graça para a sua salvação.
A Para fortalecer essa teologia que se afastava da pregação dos apóstolos, a Igreja começou a desenvolver uma teologia de tradição baseada nas afirmações papais. Portanto, a teologia da Igreja passava a ser mais “romana” que “apostólica”. Esse período de fortalecimento do papado iniciou-se com o Papa Gregório I, o Gregório o Grande. Com a finalidade de manter unida a Igreja, o Papa adotou o modelo de aproximar a teologia da Igreja das práticas pagãs locais e surgiu o movimento de veneração de “santos” locais e universais.


sábado, 27 de outubro de 2018

Antecedentes da Reforma - Os Concílios Ecumênicos


Com o crescimento numérico do Cristianismo e o aumento da complexidade da Fé Cristã, advinda das diversas lutas contra heresias e o seu desenvolvimento teológico, duas importantes mudanças se fizeram necessárias: a primeira foi a necessidade de uma organização formal do Cristianismo, que nos três primeiros séculos se construía de forma local e informal; a segunda necessidade era a de busca de uma identidade e unidade teológica.
Desde os dias dos apóstolos estas necessidades já eram vistas, como podemos identificar no livro de Atos, na controvérsia sobre a circuncisão dos não judeus: “Insurgiram-se, entretanto, alguns da seita dos fariseus que haviam crido, dizendo: é necessário circuncidá-los e determinar que observem a lei de Moisés. Então, se reuniram os apóstolos e os presbíteros para examinar a questão. Havendo grande debate...” (Atos 15.5-7). No início do IV Século, a igreja possuía uma vasta rede presente em toda a extensão do Império Romano, além dos mais diversos tipos de conceitos sobre alguns assuntos, especialmente a pessoa teantrópica de Cristo (Deus-homem).
O imperador Constantino, convertido ao Cristianismo ou ao menos dele simpatizante, percebeu a força da presença da Igreja e usou de sua influência para unir e organizar a Cristandade. Quando construiu sua capital, Constantinopla, convocou uma grande reunião de bispos, das mais variadas opiniões, para definirem a unidade teológica da igreja em torno da pessoa de Cristo. Ele custeou uma reunião na cidade de Nicéia, vizinha à Constantinopla.
Em 325, reuniram-se 318 bispos de diversas parte do Império para tratar das controversas opiniões sobre a divindade e a humanidade de Cristo. Este concílio durou seis meses e produziu várias decisões, inclusive a deposição de bispos heréticos e novas regras de ordenação do bispado. Além destas coisas, legou para história o famoso Credo Niceno, uma fórmula de fé, baseada nas Sagradas Escrituras, que até os dias de hoje, toda a Cristandade aceita, inclusive os protestantes.
O Cristianismo passou a adotar o sistema conciliar como método para dirimir suas dúvidas e conduzir a sua Igreja. Do mesmo modo como em Atos, quando a decisão precisou ser promulgada e difundida, assim o cristianismo também, por meio das decisões dos Concílios se organizava e unia a sua enorme quantidade de igrejas e fiéis.
Quatro grandes concílios são considerados comuns a toda a Cristandade: Nicéia I (325), Constantinopla (381), Éfeso (431) e Calcedônia (451). Desta forma a igreja tratava as heresias e sempre retornava aos princípios das Sagradas Escrituras. Desta forma, a Igreja Cristã mantinha e reforçava sua unidade. Assim a fé Cristã se desenvolveu ao longo de toda a Baixa Idade Média, nos seus primeiro cinco séculos de existência.


sábado, 20 de outubro de 2018

Antecedentes da Reforma - A Igreja Pós-apostólica


O final do Primeiro Século trouxe uma grande lacuna para a Igreja Cristã. A morte de João, na Ilha de Patmos, lançou a Igreja em um novo desafio: existir no mundo sem a presença de nenhum dos apóstolos.
Este período teve alguns momentos distintos, um início denominado “Patrístico”, quando a igreja foi conduzida por irmãos que haviam convido com os apóstolos e por meio do seu exemplo e escritos; um período posterior, conhecido como “Apologista”, quando teólogos da Igreja se puseram a lutar contra heresias que se espalhavam no seio do cristianismo e um outro período chamado “Ecumênico”, no qual a Igreja se organizou teologicamente em torno das decisões dos grandes “Concílios Ecumênicos”.
Os pais apostólicos foram um importante elo entre a igreja e a mensagem deixada pelos apóstolos e por Cristo. Foram eles que inauguraram a fase em que a Igreja começa a olhar para trás para construir sua fé. Eles nos levaram a perceber que a nossa fé foi estabelecida na mensagem que Cristo deixou aos seus apóstolos e estes à igreja, sobre o modo correto de ler e aplicar toda a Lei de Deus.
Entre os nomes mais destacados deste período encontramos: Clemente de Roma, Orígenes, Policarpo de Esmirna, Inácio de Antioquia, entre outros. Estes homens ofereceram vários escritos históricos, teológicos, cartas eclesiásticas, cartas a pessoas e deixaram um grandioso legado que hoje nos serve de referência para estudos sobre o desenvolvimento da fé cristã.
Um segundo momento da História da Igreja, no segundo e terceiro e até no quarto século, ficou conhecido como período apologista. Em virtude do surgimento de muitas heresias no seio do cristianismo, foi necessário que a fé cristã começasse a buscar a pureza da sua crença em Cristo e do ensino apostólico. Este foi um período especialmente teológico.
Nomes como Justino Mártir, Clemente de Alexandria, o próprio Orígenes, Atanásio,  entre muitos outros levantaram-se e iniciaram um outro comportamento, o de responder ao mundo as acusações falsas, bem como livrar o cristianismo das misturas indevidas das filosofias pagãs. Entre os maiores nomes deste período destacamos Aurélius Agostinus (354-420), também conhecido como Santo Agostinho. Ele se tornou um dos maiores teólogos de todos os tempos, levando a Igreja a um  aprofundamento teológico dos estudos das Escrituras Cristãs.
Todos estes nomes lutaram pela pureza e biblicidade da fé cristã. Esta foi uma temática da igreja: sempre retornar a Cristo.


sábado, 13 de outubro de 2018

Antecedentes da Reforma - Nos Dias da Igreja Primitiva


A Reforma Protestante de 1517 foi um movimento de transformação do próprio Cristianismo. Como numa casa, de vez em quando, fazemos uma limpeza retirando entulhos acumulados e ou reformamos cômodos que estavam deteriorados, as teses de Martinho Lutero foram o começo de um grande movimento de limpeza na teologia e prática da Igreja Cristã.
Com maior ou menor impacto, movimentos de limpeza e revisão da teologia e prática da Igreja Cristã já haviam acontecido em outros momentos da história. Afinal, desde o inicio da Igreja Cristã, mesmo ainda no período apostólico, sempre foi necessário reavaliar e reorganizar a vida da Igreja, trazendo-a de volta à pureza da crença e prática da fé, por meio da Palavra de Deus.
Paulo exortou os crentes de Corinto a retornarem à simplicidade do Evangelho (2Co 11.3-4), o que também já havia dito aos gálatas (Gl 1.6-9). João exortou os crentes da Ásia Menor a atentarem contra os falsos ensinos que estavam se cristalizando através da ação de falsos mestres e os seu espírito do erro (1Jo 4.1-6). Judas, por sua vez, resolve escrever uma carta, procurando prevenir a igreja contra práticas inoportunas que se instalaram na Igreja (Jd 1-4).
Ao longo de todo o período inicial do Cristianismo, chamado “Primitivo” e depois da morte dos apóstolos, foram necessários movimentos de purificação e correção do Cristianismo, trazendo de volta à crença e prática da Palavra de Deus.
O livro de Apocalipse é entregue às Igreja da Ásia Menor com uma série de recomendações à pureza da Igreja, exortando os irmãos ao perceberem seus erros teológicos ou de prática eclesiástica, convocando-as à reforma de sua visão e prática da fé: “Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor. Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras” (Ap 2.4-5).
Portanto, como se pode notar, desde o período apostólico, a Igreja Primitiva é chamada a estar em constante “Reforma”, por isso é que dizemos: “Igreja Reformada Sempre Reformando”. Este movimento não é de mudança, mas sempre de “retorno”, sempre de reorganização da fé e da prática, segundo Palavra de Deus.
É sempre possível que nos afastamentos da simplicidade do Evangelho, incluindo em nossa prática pessoal e coletiva elementos que não estão de acordo com Palavra de Deus, por isso, sempre precisamos de “reformadores” que nos alertem e nos conduzam de volta.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

O Canto da Justiça

Conjunto Instrumental "Eurípedes Rodrigues de Carvalho"
da Igreja Presbiteriana  Vila Formosa
A música é uma das mais poderosas ferramentas pedagógicas da humanidade. Calvino a considerava um valioso instrumento do culto a Deus:  E na verdade, conhecemos por experiência que o canto possui grande força e poder de comover e inflamar o coração dos homens a invocar e louvar a Deus com zêlo”(Pensamento Social e Econômico de Calvino -  André Bieler, 1990, pág.577).
Os Salmos formam um precioso hinário do Antigo Testamento e eram usados para ensinar, exortar e conduzir o povo de Deus no amor e temor do Senhor. Podemos dizer que um dos temas centrais dos salmos é "a justiça do povo de Deus". Não sem razão, o Salmo 1, anuncia que “O Senhor conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá”(Sl 1.6).
A justiça do Reino é cantada em muitos dos salmos e esta justiça é decorrente da própria natureza de Deus. Os justos prezam pelo caminho da justiça, por isso, os salmos celebram a justiça: “A minha língua celebrará a tua justiça e o teu louvor todo dia”(Sl 35.28).
Meus irmãos, a música cristã não tem como finalidade distrair, entreter e alegrar os homens, mas ensinar e fazer aprofundar em nossa alma a justiça do Reino: “Eu também te louvo com a lira, celebro a tua verdade, ó meu Deus; cantar-te-ei salmos na harpa (...) Igualmente a minha língua celebrará a tua justiça todo o dia”(Sl 71.22-24).
A música na igreja é mais que um “embelezamento” da liturgia. Antes, ela deve ser usada com o propósito de levar o povo de Deus à justiça da Lei do Senhor. Por isso, devemos executar nossa música com arte e com temor a Deus. A música da igreja deve cantar a verdade da Palavra e ser usada com muito temor. 
Cantar a Justiça do Reino e ensinar o caminho da retidão aos justos é um trabalho pedagógico ao qual a música cristã deve se prestar. Para tanto, o que precisamos investir nesta área é que homens e mulheres que amem e pratiquem a justiça, conforme as Escrituras ensinam, estejam à frente e sejam nossos líderes, compositores, interpretes etc. Músicos devem se especializar na arte musical, mas músicos da Igreja, devem antes, trilhar o caminho da justiça.

(Publicação em comemoração ao 20º aniversário do Conjunto Instrumental Euripedes Rodrigues de Carvalho da IP Vila Formosa).

Autor: Rev. José Maurício Passos Nepomuceno


sábado, 18 de agosto de 2018

A Vitória Que Vence o Mundo

Cena do filme "The Pilgrim Progress"
Em dias de muita luta para a Igreja cristã, João escreve sua primeira carta com um nítido enfoque de incentivar a igreja a manter-se firme em sua fé e, para tanto, propôs algumas maneiras de nos certificarmos se estamos ou não andando firmes na verdade. 
O apóstolo desafia a igreja a manter firme sua confissão de amor a Deus, por meio do seu empenho de amar o próximo de forma verdadeira e concreta. Ele também provoca a igreja pelo teste da santidade, uma vez que o filho de Deus não pode amar o mundo e sua concupiscência. Por fim, para João, o crente demonstra sua fé por meio de uma doutrina verdadeira, segundo as Sagradas Escrituras.
O tema da Vitória é muito importante para João, especialmente quando lemos o livro de Apocalipse, onde ele repete insistentemente um conceito sobre a vida cristã: “Ao Vencedor” (Ap 2.7; 11; 17; 26; 3.5; 12 e 21). O próprio Senhor Jesus é o “Grande Vencedor”: “Pelejarão eles contra o Cordeiro, e o Cordeiro os vencerá, pois é o Senhor dos senhores e o Rei dos reis; vencerão também os chamados, eleitos e fiéis que se acham com ele” (Ap 17.14)
Para João, a nossa vitória é vitória sobre o mundo, isto é, ele considera que a vida cristã é uma batalha dos filhos de Deus contra as estruturas pecaminosas que organizam o mundo apóstata. O cristão não deve se deixar moldar pelo pensamento deste mundo e usar as armas do mundo como instrumentos de sua batalha. Vencer, para João, é confiar que viver de forma reta, justa e santa, conforme nos ensinam as Escrituras, é o único modo que nos leva a agradar a Deus: “Porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé” (1Jo 5.4). 
Eu e você somos chamados a crer na vitória de Jesus sobre os poderes deste mundo e nEle depositar toda a nossa esperança (Jo 16.33). Para o cristão, vencer é viver confiando em Cristo e no seu poder e isto se prova por uma vida organizada de acordo com os mandamentos do Senhor (1Jo 5.3-5). 
Mais que a vitória em si, o modo como lutamos e as armas que escolhemos são sinais muito mais evidentes de que estamos fazendo o que é correto e a vitória. As armas que escolhemos para lutar e modo como empreendemos nossa luta neste mundo, podem ser sinais de vitória, muito mais importantes que as próprias vitórias em si. Mais que derrubar gigantes, lutar com as armas Deus é o que se espera de quem luta por Cristo neste mundo.